Samyama – concentração, meditação e hiperconsciência

É claro que nós cientistas usamos a intuição. Conhecemos a resposta antes de ir checá-la.
Linus Pauling,
Prêmio Nobel de Química de 1954.

Pátañjali afirma em sua obra clássica, o Yôga Sútra (III-4), que samyama é quando ocorrem dháraná, dhyána e samádhi ao mesmo tempo. Isso confundiu os teóricos que tiveram a pretensão de emitir opiniões sobre o Yôga. Eles, equivocadamente, entenderam que era para praticar as três técnicas mescladas. Isso é impossível, uma vez que esses três estados de consciência são, cada um, o desdobramento do anterior, noutra dimensão – o dháraná ocorre quando a consciência flui através da quinta dimensão, o dhyána, quando flui através da sexta dimensão e o samádhi, da sétima. Praticar concentração, meditação e samádhi ao mesmo tempo tem o sentido de executá-los numa só sentada, num só exercício, como alguém que sobe os degraus de uma só escada.

Antes de atingir a meditação, você precisa dominar o dháraná e, antes dele, o pratyáhára. As Upanishads, escrituras muito antigas, referem-se a esse tema com a seguinte alegoria: se o yôgin permanecer 12 matras em pratyáhára, entra em dháraná; se permanecer em 12 dháranás, entra em dhyána; se permanecer em 12 dhyánas, entra em samádhi. Está evidente que não é uma questão de multiplicar o tempo de pratyáhára por doze, e depois por doze outra vez. Trata-se de uma alusão ao fato que mencionamos acima: é necessário dominar e transcender cada um para que, de dentro dele, desabroche o seguinte.

Meditação (dhyána)

Meditação, no entanto, requer algum esclarecimento. Tradução incorreta do vocábulo sânscrito dhyána, o termo meditação foi universalizado e, por isso, agora é impossível substituí-lo. Contudo, quando falamos com pessoas mais informadas, preferimos utilizar designações tais como intuição linear ou supraconsciência. Pois, na verdade, “meditar” em Yôga significa exatamente o oposto do que essa palavra traduz.

O dicionário diz que meditar é pensar, refletir sobre algo. Contudo, a proposta do exercício chamado dhyána é parar as ondas mentais, es­vaziar sua mente de pensamentos, suprimir a instabilidade da cons­ciência (chitta vritti nirôdhah), Yôga Sútra I-2.

Para quê parar de pensar? Na verdade, o culto aos “milagres da sua mente” e venerações aos poderes mentais só são concebíveis por parte de pessoas semi-leigas. Para quem já conquistou estágios mais avan­çados no Yôga, a mente é uma ferramenta muito rudimentar, lenta, limitada e falha.

Fernando Pessoa, poeta e filósofo português do século passado, concorda:

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
e sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim, pensar nisso é fechar os olhos
e não pensar.”

Assim como durante o dia o sol eclipsa a sutil luminosidade das estrelas e elas não nos aparecem, da mesma forma cada manifestação mais densa eclipsa as mais sutis. O corpo físico eclipsa o emocional. O emocional eclipsa o mental. E o mental eclipsa o intuicional, onde se processa a verdadeira meditação.

Por isso, quando queremos cultivar ou explorar as emoções, como no caso de uma prece ou mesmo de um relacionamento afetivo, procu­ramos o aquietamento físico. Quando queremos desimpedir o mental, buscamos o aquietamento emocional – não há lucidez mental se o indivíduo está emocionado. Da mesma forma, se queremos chegar à meditação, precisamos aquietar a mente. Ou melhor, um dispositivo muito mais vasto que a mente, algo que no Yôga denominamos chitta. Ao aquietar esse veículo ou instrumento, afloramos um outro estado de consciência superior, que estava todo este tempo eclipsado pela mente. Tal estado é chamado supraconsciência (dhyána). Por esse motivo o homem comum não consegue meditar: seu organismo mental está todo o tempo turbinado.

Extraído do livro Tratado de Yôga do professor DeRose.

 

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