O Yôga Nas Origens

Trecho extraído do livro Yôga Sámkhya e Tantra, do Mestre Sergio Santos

Até o século passado pensava-se que o Yôga teria sido um produto trazido para a Índia, por nômades das planícies eurasianas, em torno de mil e quinhentos anos antes de Cristo. Hoje, isso é totalmente descartado. Afinal, a partir do início do século XX, a ciência descobriu que o Yôga já existia nessa mesma região há muito mais tempo, ao desenterrar uma grande e antiqüíssima civilização.

Tal cultura floresceu nos períodos compreendidos, aproximadamente, entre 3.000 a.C. e 2.000 a.C. Numa das primeiras sondagens arqueológicas feitas pelo Dr. George F. Dales, perto de Mohenjo-Daro – uma das primeiras cidades que faziam parte dessa civilização – verificou-se que ela repousava sob cerca de 30 metros de escombros. Desses, somente dez metros puderam ser investigados. Pois tornou-se muito difícil levar a exploração para além disso, considerando o nível do rio ter-se elevado mais ou menos oito metros, desde há 3.000 anos, e o local encontrar-se alagado.

Mas o que pôde ser salvo dessas escavações iniciais já foi o suficiente para revelar a existência de uma cultura homogênea e brilhante, considerada, a partir de então, como a mais moderna civilização da antigüidade. Baseando-se nas pesquisas desenvolvidas até o presente momento, prosseguiremos com um resumo da exploração arqueológica nas principais cidades descobertas: Harappá e Mohenjo-Daro, no Paquistão; e Lôthal, na Índia.

Além desses três núcleos, foram descobertas outras oitenta cidades, que coexistiram numa área geográfica muito extensa, maior que a antiga Mesopotâmia e Egito juntos, com mais de um milhão e meio de quilômetros quadrados, desde a  fronteira do Afeganistão, no oeste, até Uttar Pradesh, no leste; e de Manda (Jammu), no norte; até Bhagatrav (Gujarat), no sul. Todo esse conjunto foi chamado, no início das escavações, de civilização do vale do Indo e, mais tarde, de civilização harappiana.

 

O renascimento de uma Civilização

 

A primeira cidade a ser revelada, entre 1920 e 1930, foi Harappá, às margens do rio Raví. Ela possuía mais de cinco quilômetros de circuito e se encontrava em ruínas. Quase na mesma época, o arqueólogo Banerjí, trabalhando num gigantesco campo de entulhos bem mais ao sul, chamado Mohenjo-Daro, estabeleceu uma relação entre os destroços recolhidos nesse local com os objetos encontrados em Harappá.

Uma das características que mais chamavam a atenção era que tais cidades haviam sido planejadamente construídas; possuíam bairros dispostos como num tabuleiro xadrez, cortados por largas artérias orientadas na direção dos ventos, e por ruas que chegavam a ter quatorze metros de largura. Isso mostrava um verdadeiro planejamento urbano amadurecido e preestabelecido, ao contrário da maioria das cidades do Oriente Antigo e mesmo da Europa Medieval, que surgiam de qualquer maneira em todas as direções com ruas estreitas e sinuosas.

Mohenjo-Daro possuía cerca de 260 hectares e passou a ser um manancial de estudo, pois oferecia a vantagem de estar em razoáveis condições de conservação. Dentro dessa cidade, os cientistas descobriram a oeste, na parte mais alta, um bairro administrativo. E a leste, na parte mais baixa e mais vasta, bairros populares, reservados às habitações, às pequenas oficinas e ao comércio.

O sistema de irrigação ali encontrado era perfeito. Algumas canalizações levavam a água do rio mais próximo até a mais simples habitação; e outras formavam regos no meio das ruas, sendo cobertos por pedras achatadas. E tais sulcos faziam circular as águas pluviais e os esgotos que desembocavam em poços de decantação.

No passado, o rio Indo, que depois se deslocou três quilômetros para leste, margeava esses bairros, onde até cais acostáveis foram encontrados. Essa preocupação pela higiene e bem-estar geral representa um caráter excepcional para a época, já que, no restante do mundo, importava-se pouquíssimo com o povo.

As casas, mesmo modestas, possuiam banheiros de uma qualidade que se mantém até hoje na Índia, e testemunham um gosto dos moradores pelo conforto. Chama a atenção também, o complexo de compartimentos com banheiros em vários andares nos edifícios públicos do bairro alto da cidade. E mais, foram encontradas galerias circundantes, com pórtico e degrau, construídas à volta de um pátio interno. Assim, as casas eram muito semelhantes às do Oriente Médio, mas com a superioridade de terem sido construídas com tijolos cozidos, revestidos de gesso. A maioria dessas residências era dotada de poços e instalações sanitárias domésticas: com cozinha, banheiro, sala, quartos, etc., totalmente desconhecidas das outras civilizações vizinhas de sua época.

Nada do que conhecemos do Egito Pré-histórico ou da Mesopotâmia ou de qualquer outro local da Ásia Ocidental se pode comparar com os banhos de excelente construção e com as casas espaçosas dos cidadãos de Mohenjo-Daro. Naqueles outros países, o dinheiro era esbanjado na construção de templos magníficos para deuses e reis, e o resto da população tinha de se contentar, aparentemente, com habitações insignificantes feitas de terra. No vale do Indo, o quadro é inverso e as mais belas estruturas são as que se ergueram para a comodidade dos cidadãos.

Algumas das moradias, de até dois andares, eram construídas com madeira e agrupavam-se em imensos conjuntos habitacionais. Nos bairros públicos, haviam grandes celeiros com um requintado sistema de isolamento e ventilação. Tais celeiros representariam verdadeiros bancos nacionais, onde todas as mercadorias podiam ser avaliadas por medidas de cereais que serviam como moeda de troca ou unidade de referência.

A economia harappiana era essencialmente agrícola e, por isso, graças ao sedentarismo, os agrupamentos humanos puderam se converter em povoados, multiplicarem-se em cidades, e formar uma tão grandiosa civilização. Cultivavam-se cereais, especialmente cevada e trigo, além de hortaliças e árvores frutíferas. Comprovou-se também que os harappianos foram os primeiros a cultivar algodão, cujo clima mais úmido do vale do Indo, naquela época, beneficiava bastante as plantações que podiam crescer em terras não irrigadas. Era intensa e próspera a atividade agrícola ali desenvolvida, constituindo-se como a mais importante ocupação dos habitantes locais.

Outro sítio arqueológico, Lôthal, explorado mais recentemente, na década de 80, era uma cidade portuária situada no início do Golfo de Cambay. Descobriu-se que através daí importava-se lã e exportavam-se, principalmente, algodão e marfim. Tecnicamente instalado, tal porto possuia um ancoradouro com a base de 216 por 37 metros, facilitando que os barcos entrassem pelas comportas na maré alta. Esse porto foi um dos primeiros desse tipo a serem descobertos no mundo.

O saber científico harappiano destacava-se através do avanço da medicina, pois eram realizadas até mesmo cirurgias faciais com implante, retiravam-se tumores, faziam-se suturas externas e internas e os materiais cirúrgicos eram bem parecidos com os que temos hoje.

Constatou-se ainda que foram tais povos que introduziram o sistema decimal para medidas lineares. N.S. Rajaram, no jornal hindu The Hindustan Times (28/11/93), diz: “Mesmo um estudo superficial das áreas harappianas sugere que seus construtores eram engenheiros e planejadores de cidades extremamente capazes. E isso requer um sofisticado conhecimento de matemática, especialmente geometria. Estruturas complexas como o grande banho de Mohenjo-Daro, o porto de Lôthal ou a fortaleza de Harappá são inconcebíveis sem um detalhado conhecimento de geometria. O mundo teve que esperar mais de 2.000 anos, até o surgimento da civilização romana, para o planejamento de cidades e o saneamento alcançar um nível comparável.”

A respeito de sua estrutura social, diz Gaston Courtillier, “Mohenjo-Daro e Harappá também não testemunham a existência de palácios ou de túmulos reais. Daí a conclusão de que um ‘regime democrático’ fosse já então uma realidade nesse tempo, sendo um grande avanço para a época. Nestes milênios de tirania, de insegurança, de religião e magia oficiais, uma tal conclusão torna-se surpreendente, ao constatarmos no vale do Indo a preocupação pelo destino das pessoas, quando no resto do mundo se fazia tão pouco caso disso.”

Trecho extraído do livro Yôga Sámkhya e Tantra, do Mestre Sergio Santos

Neste livro você vai encontrar esse texto acompanhado de imagens e mapas.

 

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