Ciúme?

Na nossa aldeia praticamente não havia esse sentimento. Ele ocorria mais freqüentemente na infância, quando uma criança queria brincar com o objeto que pertencia a uma outra e esta, instintivamente, não deixava. Contudo, se os pais ou amigos mais velhos observavam o fato, procuravam conversar com os menores, explicando que nós sobrevivíamos melhor que os demais bichos porque compartilhávamos, enquanto que os outros animais competiam entre si.

Se, quando crianças, disputassem por um brinquedo, quando adultos poderiam ferir-se ou matar-se numa contenda e toda a aldeia seria prejudicada com isso. Então, os pequenos eram educados para repartir e para atenuar o sentimento de posse. Assim, se um estava comendo e outro menino se aproximava, automaticamente, o primeiro estendia-lhe a mão, oferecendo parte do que comia. Faziam o mesmo com os brinquedos. Dessa forma, mais tarde, quando estivessem maiores, agiriam da mesma forma desapegada com as suas relações afetivas.

Eventualmente, algum adulto manifestava ciúme da sua parceira ou do seu parceiro por qualquer motivo. Invariavelmente, todos quantos presenciavam a cena reeducavam-no imediatamente, rindo-se dele, caçoando amistosamente e dizendo-lhe que estava agindo como as crianças pequenas, ainda não educadas, que temiam que o amigo lhes tomasse o brinquedo. Às vezes o enciumado se emburrava um pouco, mas acabava sorrindo e desculpava-se pelo papelão.

Como conseqüência, os ciúmes constituíam uma exceção nos relacionamentos e não eram bem vistos. Uma pessoa sistematicamente ciumenta era tida pela comunidade como mal educada e imatura. Era como se não tivesse sido educada na infância ou amadurecido o suficiente para enfrentar a vida adulta. Tal pessoa costumava ficar solteira, pois ninguém queria se envolver com ela e submeter-se a uma existência de restrições e de tensões conjugais.

Não havendo o sentimento exagerado de posse, e reinando um incentivo para compartilhar tudo, era normal que, quando alguém se separasse, ou se casasse de novo, essas circunstâncias não causassem estremecimentos nem rompimentos.

Capítulo do Livro de ficção Eu me lembro… do Professor DeRose

 

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