Auto-estudo, percepção e críticas

É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.”

Epiteto

Você se conhece bem? Quem é você? Se você acha que sabe a resposta a essas perguntas, pergunte-se agora COMO você define quem é você. Vamos supor que ache que é uma pessoa disciplinada. Como chegou a essa conclusão? Com quem está se comparando? Com o Michael Jordan ou com Homer Simpson?

Todas as características são relativas, então não podemos nos enquadrar em nenhum adjetivo de fato. Mesmo que pudéssemos nos encaixar em uma característica nunca podemos afirmar com certeza que somos de determinada maneira, pois não temos as mesmas características o tempo todo, apesar de ter certa estabilidade. Existem momentos em que somos disciplinados e outros não.

A personalidade é algo flutuante, não tem definição. É como algo embaçado, as qualidades não são concretas, pois o que eu “sou” depende dos parâmetros que o observador tem em experiências com outras pessoas. A personalidade não tem necessidade de definição. Se você a define, se limita.

Às vezes nos apegamos a uma imagem de nós mesmos e nos surpreendemos. Atitudes que não se acreditamos sermos capaz de ter às vezes nos surpreendem. Tudo o que “sabemos” sobre nós mesmos foram características apontadas por outros, que as definiram de acordo com seus padrões, nos comparando com o que já conheciam.

Para isso praticamos o autoestudo, observando como nos comportamos, medindo esse comportamento com a reação das pessoas, e nos aprimorando a cada momento. Não podemos nos definir nos baseando nas percepções alheias, mas podemos nos aprimorar cada vez através delas, tornando-nos pessoas cada vez melhores. Para nos aperfeiçoar devemos saber o que pode ser aprimorado.

Uma boa forma de saber o que pode ser melhor é se conhecendo um pouco mais aos olhos dos outros. É uma forma de conhecer como temos utilizado nossas características, de forma positivas ou não: perguntando com coragem às pessoas em quem você confia. Mesmo aquelas que não te conhecem tanto. A visão de quem nos conhece pouco é muito diferente daquelas pessoas que convivem conosco.

As pessoas têm impressões umas das outras, quase sempre, equivocadas. Os que as pessoas pensam sobre você geralmente está errado. O que se pensa sobre si geralmente também não condiz com a realidade. Mas por isso mesmo fazemos esse trabalho de observação, para que essa percepção se aproxime cada vez mais da realidade. Mesmo que se pense que a percepção dos outros esteja distorcida, somos responsáveis por isso. Somos responsáveis pela imagem que transmitimos. Isso é conhecido há mais de 2000 anos: “A mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.

Por essa divergência de visões devemos aceitar as críticas que nos são passadas para nos aprimorar, uma vez que não conseguimos observar certas coisas em nós mesmo que outras pessoas observam com mais facilidade. Podemos achar que a crítica não tem fundamento, mas há uma chance de estar errados, pois não enxergamos essa possível falha. Talvez esse defeito nem seja real, mas é bom saber que está passando uma imagem inadequada às pessoas a sua volta para ser capaz de consertá-la.

Um pensamento que me foi passado do meu amigo e monitor, Daniel Suassuna, é que muitas vezes o que mais gostamos em alguém é também o que menos gostamos. As características mais fortes de cada um são o que nos aproximam, mas com o passar do tempo, aquela característica é tão forte que acaba por se tornar algo que afasta os demais.

Por exemplo, uma pessoa pode se apaixonar por outra por essa ter uma personalidade forte e segura, e já para o final de uma relação esse passa a ser o principal fator da separação, pois a personalidade forte começa a incomodar. Ou dois amigos que se aproximam porque um é muito alegre o tempo todo, e com a convivência muito próxima, esse passa a ser um fator de repulsa.

Todos nós temos características que nos impulsionam ao sucesso e outras que nos impulsionam ao fracasso. O que importa é saber lidar com essas características. Defeitos são potenciais qualidades mal administradas.

Se nos concentramos positivamente em nossas qualidades, elas crescem. Se nos concentramos positivamente em nossos defeitos eles se tornam qualidades. Uma vez que você conhece o seu potencial, você vai utilizá-lo para o seu crescimento, desenvolvendo esses atributos. Por exemplo, quando você sabe que é bom em resolver conflitos, você vai usar esse potencial sempre que vir um conflito e exercitando essa qualidade, tornar-se-á ainda melhor.

Conhecendo-nos bem, sabemos que temos peculiaridades que tornam a nossa vida mais difícil, mas quando se tem vontade de evoluir você passa a dosar essas características, utilizando-as a seu favor. Se você já sabe que é uma pessoa teimosa, pode transformar isso em persistência, em firmeza, sem que isso afaste outras pessoas. Da mesma maneira, se nos concentramos negativamente em nossas qualidades, elas se tornam defeitos. Por exemplo, alguém que sabe que é muito bonito e/ou inteligente, mas não sabe lidar bem com isso acaba irritando todos a sua volta com arrogância.

E se nos concentramos de maneira negativa em nossos defeitos eles aumentam. Isso pode ser observado quando uma pessoa sabe de algo com que tem dificuldade de lidar e ao invés de mudar apenas queixa-se disto, tornando-se pior.

O conto “Assembléia das Ferramentas”, de autor desconhecido, ilustra bem como as características podem ser utilizadas e enxergadas de uma forma negativa ou positiva, dependendo do observador e também da administração dessas características:

Contam que na carpintaria houve uma vez uma estranha assembléia. Foi uma reunião de ferramentas para acertar suas diferenças.

Um martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar pois era muito duro. O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo.

Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.

Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro e o parafuso. E finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel.

Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembléia reativou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:

- Senhores, ficou demonstrado que temos nossa maneira de ser, mas o carpinteiro trabalha com utiliza nossas características a seu favor, como se fossem pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.

A assembléia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato. Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.

Texto de autoria da Instrutora Helena Milanez – http://www.metododeroseasanorte.com.br/blog/home/auto-estudo-percepcao-e-criticas/

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Uma resposta a Auto-estudo, percepção e críticas

  1. Manoel Salgado disse:

    Texto muito interessante e apropriado para reflexão.

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