A inadaptabilidade da palavra Yôga para comunicação

 

A linguagem foi criada para conseguir a boa comunicação entre os seres humanos. A partir do momento em que ela não sirva para essa comunicação ou, até mesmo, cause mal-entendidos, tal linguagem precisa ser repensada.

Quando nós expressamos o vocábulo “Yôga”, o interlocutor já começa a embaralhar “o Yôga” com “a Yôga”. Dali a pouco ele já evolui para “o Yóga” e “a ióga”. Com o nome, já começam as discrepâncias. (Explicação: é que há muitos instrutores que o pronunciam e escrevem de diferentes formas e que o interpretam de maneiras divergentes.)

O debatedor questiona o gênero da palavra, a pronúncia e a escrita. Como se isso já não fosse confusão suficiente, na sequência passa a associar o que fazemos com algo completamente diferente e até mesmo antagônico àquilo sobre o que estamos querendo explanar. (Explicação: existem 108 tipos de Yôga que são diferentes entre si.) “Não, meu querido, não precisa de paciência, não, para praticar”, diz você cheio de tolerância, e tem que ouvir: “Como que não? Todo o mundo sabe que a ióga é muito parada…” (Explicação: há algumas modalidades que são realmente tediosas.)

“Não, companheiro, não é para tua namorada, não, é a ti que eu estou convidando”, insiste você já com menos paciência, e amarga a resposta: “Ah! Não. A ióga é para mulher.” (Explicação: embora na Índia o Yôga seja uma arte de cavalheiros, no Ocidente, a partir da década de 1960, foi muito difundido para senhoras.)

“Não, meu anjo, não é para idosos, não, é para gente jovem”, diz você disfarçando como pode a irritação que quer explodir num berro de desabafo, e é obrigado a escutar: “Tá. Quando eu ficar mais velho e não puder mais fazer esportes de homem, aí, quem sabe?” (Explicação: o Yôga é para gente jovem, mas alguns ensinantes se especializaram em recursos inspirados no Yôga para aplicar à terceira idade.)

“Não, cara, não é terapia coisíssima nenhuma, é para gente saudável”, diz você visivelmente abalado, e mal consegue deixar que o interlocutor termine a frase: “Como que não, se os professores de ióga divulgam os benefícios para a saúde e alguns até enumeram as doenças que ela cura?” (Explicação: alguns profissionais exploram a eficácia das técnicas, direcionando- as para atenuar problemas de saúde.)

“Não, seu pafúncio, não é uma seita, não, é para pessoas lúcidas e de bom-senso”, diz você já querendo saltar sobre a jugular do outro, e indigna-se ao ouvir: “Como que não é, se eu vejo sempre na televisão e no cinema pessoas que dizem professar a ióga, com roupas exóticas, cantando Harê Krishna; e outras com atitude mística, colocar as mãos em prece e se inclinar para a frente ao mesmo tempo que pronunciam o mantra ‘adamastêr’?” (Explicação: de fato, há vertentes que se consideram religião, como é o caso do Harê Krishna e outras. Contudo, Yôga não é religião e sim filosofia.)

É… essa palavra mágica que produz tanto malentendido não pode mais ser utilizada para a comunicação com quem não for estudioso da mesma modalidade. Por isso, para comunicarmonos com amigos, familiares, colegas do escritório, da faculdade, do ginásio, imprensa, conhecidos e desconhecidos, não vamos mais utilizar esse termo.

Quando formos dar entrevistas em rádio, TV, jornais e revistas, o que precisamos a partir de agora é dizer, com muita educação e simpatia, que o entrevistado deve ser qualificado como Empreendedor do Método DeRose, afinal é isso que consta no seu Certificado de qualificação. Que queremos falar exclusivamente sobre o Método DeRose. Que é uma proposta nova e queremos explicar o que é. (O conteúdo não é novidade alguma. A proposta é que é nova.)

Veja os seguintes exemplos do que pode acontecer em entrevistas:

Chegando ao destino para ministrar um curso na Universidade Tecnológica Nacional, tive a alegria de saber que dois jornalistas gostariam de me entrevistar.

Na primeira reunião, assim que nos cumprimentamos, a entrevistadora me desiludiu: “Como o assunto é Yôga, esta matéria vai para o suplemento feminino.”

Esse foi o primeiro choque. Então, se quero discorrer sobre uma filosofia hindu, não pode ser para homens? Não posso concordar com isso!

No entanto, pior foi o que veio depois. Na época, eu já era professor havia mais de quarenta anos. Minha didática sempre tinha sido elogiada pelos alunos que conseguiam compreender tudo facilmente. Imagine minha perplexidade ao escutar: “Não sei como vou escrever isto que o senhor está colocando. É muito complicado. Minhas leitoras não vão entender nada.” Pensei, cá comigo: se fosse um homem a declarar tal coisa, seria tachado de machista-leninista.

A segunda reunião foi um tiro de misericórdia na minha esperança de me fazer compreender. Muito educado, o entrevistador perguntou respeitosamente: “O senhor se considera um guru, uma pessoa especial, um escolhido?” Dei risada, descontraí o clima, respondi que somos profissionais, que atualmente só se usa o termo guru em expressões como o guru do marketing ou o guru da economia, e coisas assim, mas não utilizamos esse vocábulo na nossa profissão. Então, veio a próxima pergunta: “Como foi o seu contato com Deus?”

Desisti! Como é possível que se vá entrevistar alguém sem ter-se informado previamente sobre o trabalho e a obra dessa pessoa?

Acaso um médico seria entrevistado sobre a gripe suína sem antes o entrevistador saber se o médico é infectologista ou psiquiatra? A culpa não é do entrevistador. Repito que ele foi muito respeitoso e até querido. A culpa foi do rótulo Yôga. Não é “ióga”? Então!? Todo o mundo sabe o que é “a ióga”, ora!

Conclusão: não podemos mais utilizar a palavra mágica que faz com que as pessoas reajam de maneira estranha. Ainda bem que agora trabalhamos com o Método DeROSE o qual, inclusive, é mais abrangente.

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